quarta-feira, 21 de março de 2007

Coisas A Fazer Se Está Aborrecido

N


a sociedade actual, onde à hiper-conectividade técnica se contrapõe a dramática sub-conectividade social, não são poucas as vezes em que o indivíduo dá por si vítima do tédio e da chateação difusa. Daí à agressão dirigida a pessoas inocentes - muitas vezes aquelas de quem mais gostamos - vai um passo muito pequeno, que urge evitar.

F.I.D.S., como sempre, está de estetoscópio encostado ao peito da sociedade civil, identificando sibilos, controlando a sístole cívica e cronometrando a diástole social. Às vezes até fazemos gráficos e apresentações PowerPoint, que, não raras ocasiões, enviamos a Steve Jobs (até agora, Jobs nunca nos respondeu, provavelmente por não falar português).

Mas nada disto vem agora ao caso. Seguem-se sugestões F.I.D.S. para contrariar o tédio ou a revolta contida, seja pela vida em geral, seja por aquela cabra que o anda a chatear no emprego, ou por aquela puta envernizada que, sem uma razão perfeitamente identificável (e quem diz que é preciso?), simplesmente o irrita...

Sugestão 1) Faça o estilo alce:

Sugestão 2) Mister elefante:


Sugestão 3) Choque a sua sogra com a avestruz:

Sugestão 4) Aqui vem o canguru:

Sugestão 5) Cansado? Faça a foca:

Sugestão 6) Sem energia? Mister frog

Sugestão 7) O esquilo é um clássico:

Sugestão 8) Arranje vida própria

terça-feira, 20 de março de 2007

Tired Little Girl Throws Epic Tantrum

Esta manhã a minha filha, de 4 anos, fez uma birra monumental. Não seria nada do outro mundo se eu não estivesse muito pressionada pela realização de uma reunião agendada pela chefe, com início às 9h da manhã.

A birra nasceu não sei bem de que microscópico episódio, convertendo choro em gritos, acompanhada de uma determinada e despropositada retenção da urina, de agitação e coices, sempre que procurei chegar à razão, abraçando-a ou aquietando-a. Aliás, o mais fácil foi pensar que esta birra foi propositada, por saber que eu tinha especial interesse em despachar-me, esta manhã.

Também a minha irritação, stress e frustração foram crescendo, em função do crescente descontrolo desta birra, e com a implacável passagem dos minutos. E foram cerca de 40, os minutos que se passaram nisto. Quanto mais tudo crescia menos capacidade tive para tentar perceber o porquê. Mas eu bem sabia que o motivo não poderia ser circunstancial e sim muito objectivo, inconsciente, mas objectivo.

Vesti-a e lavei-a, mal e porcamente, lidando com a sua obstinada e sonora falta de colaboração.

O chichi finalmente libertado, a ida para o carro e o pequeno almoço, vieram introduzir uma pequena mudança que, felizmente, diminuiu um pouco o volume sonoro e a convicção dos protestos. Já no carro, enquanto tomava o seu "leitinho do ursinho azul" e já com a fome matinal finalmente aplacada (a qual também, julgo eu, tinha contribuído para o crescendo da birra), mas ainda sem querer dar o braço a torcer, manifestou-me, de forma ainda entrecortada por soluços, que eu não a tinha deixado dizer uma coisa, procurando, assim, justificar a birra. Dizendo-me, desta forma, que afinal havia um motivo para aquela reacção matinal, e sobre o qual eu nada sabia.

Também eu já mais calma e recomposta, já disponível para reflectir, disse-lhe que se ela não dissera o que queria tinha sido porque estava a chorar muito e demasiado alto, sendo, assim, difícil dizer-me o que quer que fosse. Disse-lhe calmamente que compreendia que ela estivesse triste e zangada comigo e com o pai, porque na noite anterior nós tinhamos chegado a casa tão tarde que ela já não nos vira, adormecendo na companhia da avó. Ou seja não aplacara a ansiedade de nos ver chegar, antes de adormecer.

De facto, ontem foi um dia difícil de trabalho, pouco habitual e muito cansativo. Ela sabia que tal ia acontecer, não foi inesperado, tínhamos falado calma e antecipadamente com ela, mas o entendimento subjectivo foi o do abandono, e o impacto afectivo foi o medo de nos perder. Esta manhã tinha sono e estava zangada connosco. Perguntei-lhe, em todo o caso, que coisa era essa que me queria dizer.

Respondeu-me, agora já calma, após alguma hesitação e reflexão:

- Eu queria dizer que tinha uma coisa para te dizer e tu não deixaste, só que agora já não me lembro da coisa que queria dizer.

E esta hein?

segunda-feira, 19 de março de 2007

O mundo já existia antes de eu nascer?

Uma das mais maravilhosas pessoas que tenho no mundo é a minha filha. Vê-la crescer é fenomenal e sinto-me privilegiada por poder testemunhá-lo.


Com 4 anos, a noção que ela tem do tempo é ainda limitada. Sempre que falamos de acontecimentos em que estive envolvida, na minha vida antes dela nascer, ou de episódios de quando eu própria era miúda, fica com um ar sonhador, mesmo perplexo, e pergunta-me, curiosa, pestanejando os seus grandes olhos castanhos

- Mamã, e onde é que eu estava?

Quando lhe respondo que ainda não era nascida ou que ainda nem sequer estava na barriga da mamã, fica desconfiada, como se não visse vantagem na existência de um mundo anterior ao seu nascimento.

A (in)compreensão do “antes de mim”, nesta idade, é semelhante à (in)compreensão do que significa morrer.

Nestes últimos tempos temos visto filmes de desenhos animados em que existem personagens que ficam órfãos. Dei-me conta, no outro dia, que ela percebeu, no seu pequeno grande coração, o que significaria perder os pais, porque se identificou com o Marco. Lembram-se do Marco? “Era um porto, italiano...”? Puro sadismo em forma de desenhos animados. Bom, adiante...

Encostou-se ao meu braço e disse com ar decidido

- Mas eu não vou ficar sem ti!

Abracei-a enternecida, e beijei-a desenfreadamente, desesperada por não lhe poder jurar que isso jamais acontecerá. Disse-lhe que também eu não queria, nunca, ficar sem ela!

terça-feira, 13 de março de 2007

"Por falta de apoios, espantalho já não vai ao Guinness"


À


primeira vista, julguei que a notícia tivesse a ver com o acompanhamento do processo de despedimentos em massa na Administração Pública que o nosso Governo leva actualmente a cabo. Pensei que o título daria conta de que o Primeiro-Ministro se está a atrasar, sabendo-se que, a meio do mandato, ainda lhe falta pôr na rua um pouco mais de 69.000 pessoas para cumprir os ambiciosos objectivos que estabeleceu há coisa de dois anos atrás. O tempo começa a escassear, e o espantalho correria o risco de ”não ir ao Guiness”, em sentido metafórico.

Mas não. A notícia tem a ver com espantalhos normais, daqueles que vestem mal. Daí que eu tenha descoberto logo à terceira linha que a notícia não poderia ter a ver com José Sócrates. Então se eu falhei por ter percebido mal, porquê estar agora a escrever sobre a notícia? É que mesmo não tendo directamente a ver com o Primeiro-Ministro, não consigo deixar de pensar que a frase “Espantalho já não vai ao Guiness” resume extraordinariamente bem não só o estado actual do nosso país, como o estado psicológico da maioria dos portugueses.

De certo modo, estamos a tornar-nos num grande espantalho europeu, e resta-nos agora apostar (dentro do reduzido leque de possibilidades que se colocam a uma figura tão pouco polivalente como um espantalho) em diferenciar-nos pelo tamanho físico: Ena!, só de imaginar um dia sermos “o maior espantalho da Europa, ou talvez até do MUNDO!!”… A agro-pecuária francesa, a indústria alemã, a banca espanhola, todos eles vergados perante nós, reconhecendo humildemente: “Sim senhor, que grande espantalho tendes! É obra, temos de reconhecer!”. Tomem lá e embrulhem!, disto não sabem vocês fazer.

Refere a notícia que, no final da nona edição do “Macinhata Espanta”, no ano passado, as organizadoras do evento, cansadas e desiludidas, “(…) já nem sequer recolheram as centenas de espantalhos, espalhados pela freguesia. “Deixámo-los morrer como morrem os espantalhos: deitados no chão”, dizem, lamentando nunca ter havido a preocupação de colocar placas de localização do evento.” Com Portugal é a mesma coisa: parece nem sequer haver a preocupação de colocar placas de sinalização alertando para o facto de ainda existirem pessoas dentro do País. É que ainda sobram algumas, embora se reconheça que só atrapalham.

A emergência deste novo modelo de desenvolvimento para Portugal já tem, aqui e ali, os seus ecos. A espantalhofilia, como novo paradigma de especialização produtiva, parece encontrar apoio em personalidades como o Prof. César das Neves, que ainda ontem, no DN, alertava para o facto de os portugueses viverem excessivamente preocupados com realidades longínquas, que, bem vistas as coisas, não só não lhes dizem respeito, como também não têm impacto real nas suas vidas práticas. Os portugueses, elabora o Prof. César das Neves, preocupam-se em julgar sumariamente as acções de pessoas que não conhecem pessoalmente, de Bill Gates até membros do Governo, intoxicados que estão pela opinião em segunda mão de “comentadores” de autoridade questionável. O Prof. César das Neves prossegue indignando-se com o facto de qualquer “merceeiro” ou “taxista” se arrogar o direito de julgar acontecimentos que se passam lá muito longe, protagonizados por pessoas que nem o taxista nem o merceeiro conhecem. Não se limitando a criticar, o Prof. César das Neves ajuda a procurar uma via melhor, e é então que vem defender o regresso nostálgico a uma espécie de “media de proximidade”, referindo, a título de exemplo, a “botica da esquina”, onde, até há bem poucos anos atrás, bastava entrar para se ficar a saber tudo o que realmente importava para a vida de cada um. No fundo, digo eu, trata-se de desligar a CNN e ir mas é à Dona Aurélia.

Da tese do Prof. César das Neves à economia do espantalho que aflorei ao início, é um salto muito pequenino, mas que urge dar se queremos apanhar o nosso lugarzinho no grande comboio europeu (ainda que no vagão das mercadorias).

Num país onde menos de um terço da população activa tem o Ensino Secundário completo, o que o Prof. César das Neves parece vir propor é que ninguém vá além da sua chinela, e que cada um se preocupe mas é com o que lhe diz respeito, ou seja, com o que acontece no seu bairro, e com as pessoas que cada um conhece pessoalmente.

O país do maior espantalho do mundo, António Oliveira Salazar como “Grande Português”, o recentramento da opinião crítica dos portugueses no bairro de residência… Já não era sem tempo vermos começar a emergir um novo padrão de modernidade para Portugal.

quarta-feira, 7 de março de 2007

É impossível não sentir ternura!

As minhas deambulações na blogosfera levaram-me até aqui. Nao pude ignorar. Ora vejam:

quinta-feira, 1 de março de 2007

Fugas para a frente

Um dos truques para que, de vez em quando, nos possamos aventurar no árduo campo da mudança poderia chamar-se uma fuga para frente. O cobarde que se aventura na frente de batalha, protagoniza-a. Procura assim exorcizar os seus maiores receios. No quotidiano, poderíamos dizer que a fuga para a frente significaria colocarmo-nos, propositadamente, perante um acontecimento que gostaríamos de evitar, tendo em vista ser-nos impossível fugir à mudança (positiva) que este pode desencadear. Mas isso implica consciência do caminho que se quer percorrer. O que impede que o percorramos é a preguiça, o comodismo... e sim, o medo.

Quando esse caminho nos é (ainda?) desconhecido, pergunto-me se procurar ou pôr em prática pequenas estratégias para manter algum entusiasmo, que nos defenda do marasmo em que, dia após dia, vamos gastando banalmente a nossa existência, uns melhor que outros, outros mais sortudos que alguns, alguns ainda mais que outros, serão fugas para a frente. Aceitam-se exemplos.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

A beleza está nos sítios mais inesperados


Não desfazendo, és mesmo doida, ó sweetjene, poderão vocês dizer, e com razão. Acontece que mesmo nos locais mais hediondos a beleza manifesta-se, de formas inesperadas e improváveis. Quem mo mostrou foi Shaka, d'A Vaidade , a quem agradeço. Ora vejam.




Então, tinha ou não tinha razão? É só preciso saber vê-la.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Johnny V keeps trying...

(Clique na imagem para a ampliar)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A Receita

Matutei e matutei sobre a frase "Outsourcing de nos tornarmos melhores pessoas é coisa que não existe". Quem a disse em tom jocoso e cheio de provocação, foi o meu amigo Juanito. O meu amigo tem razão e eu fiz uma descoberta. Descobri que a diferença entre viver obcecada pela culpa, esperando a qualquer momento ter que expiá-la de forma inoportuna, inusitada e dolorosa, e ter consciência que devo, quero e posso pagar a minha dívida ao mundo pela sorte que sempre tive e tenho, sendo proactiva, é a diferença entre a depressão e a saúde.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Tudo ficava em ruínas.....

A noite e a madrugada tinham sido muito cansativas porque ela entrou naquelas conversas graves com que já vinha a ameaçar "tu és assim...tu fazes assim...". Quando um entra nisso é muito difícil ao outro ficar de fora, porque ficar de fora é reconhecer logo que nada é já recuperável. Metido nesse diálogo suicida, tive bem consciência do que ele tinha de infantil: há pouco mais de um ano que, em Paris, ficamos encantados com aquele amor que, do cimo do acaso, nos tinha caído nas mãos mas, como as crianças, estávamos a desmanchá-lo para ver como funciona por dentro. Irresponsáveis, estávamos a estragar o presente que o destino nos dera e que, ao longo daqueles meses, tinha sido a nossa força, o nosso recreio e o nosso calor. A certa altura dei-me conta de que, de repente, tudo ficava em ruínas, impossível de reconstruir.

António Alçada Baptista, O riso de Deus

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Não tenho memória nenhuma!

Como é possível que me acusem de o ter morto se eu me tinha esquecido de que a pistola estava carregada? Toda a gente sabe que não tenho memória nenhuma. E ainda dizem que a culpa é minha? É o cúmulo, palavra de honra!

Max Aub, Crimes Exemplares

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Frase do dia

O estado proíbe ao indivíduo a prática de actos infractores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los.

Sigmund Freud

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

As manhãs de Juanito

Tratava dos canários
Dava de comer à mula
Ficava imóvel meia-hora

Todas as manhãs
Tratava dos canários
Dava de comer à mula
E ficava imóvel meia-hora

Nunca era premeditada essa paragem de meia-hora
Acontecia
Todas as manhãs

Talvez fosse a pausa depois de dar de comer à mula
O momento que se escoava, lento

Parecia haver um tempo natural
Desde que tratava dos canários
Até que dava de comer à mula

Não era nunca um problema
Passar dos canários
Para a mula

Acontecia
Todas as manhãs

Era a pausa
Depois de dar de comer à mula
Que o aturdia

Uma pausa enorme

Sabia muito bem o que ia fazer a seguir
Sabia até muito bem

Sabia que a seguir ia ele comer
Depois de dar de comer à mula

Mas não conseguia mexer-se

Ficava imóvel meia-hora
Fixando o deserto

Por vezes fixando a adega

Outras vezes fixando a bomba do poço

Variava a direcção para onde calhava olhar
No momento em que a imobilidade o tolhia

Chegou ao ponto de ansiar por esse momento
Em que ficava imóvel meia-hora

Era o ponto alto da sua manhã

Tratava dos canários
Dava de comer à mula
Ficar imóvel meia-hora


by Sam Shepard - Motel Chronicles / Crónicas Americanas

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

A pressão social para a procriação

Todas as minhas amigas mais próximas estão actualmente muito grávidas do seu segundo filho ou já o tiveram. Muitas das minhas colegas também. A grande maioria delas (ou de quem as rodeia) não se cansam de me interpelar: “Então, e quando é que é a tua vez?” ou “Não dás um irmãozinho à tua filha”?

Na verdade, não digo que o relógio biológico não tenha já acusado, mais que uma vez, que vai sendo tempo de repetir a dose. Mas logo substituo as românticas e ternurentas imagens (e recordações) de um bebé bem cheiroso, pelas marcas óbvias de noites sem dormir, rugas, cabelos brancos e costas completa e assustadoramente rebentadas, e perco de imediato a vontade. Estou muito feliz com uma filha. E, verdade seja dita, educar filhos custa caro.


Outro dia comentava com uma colega minha - uma jovial e atraente mulher de 50 anos, com 3 filhos já criados - que não estava nada certa de querer ter mais filhos. Para a provocar disse-lhe que em vez disso preferia ir juntando dinheiro para fazer uma plástica, quando chegasse à idade dela. Apoiou-me, com entusiasmo referindo que ter filhos para responder à pressão social constituía um mau projecto. Identifiquei-me com aquilo. Fiz o mesmo comentário a uma das minhas amigas mais próximas, da minha idade, que acabou de descobrir que está grávida do seu segundo filho. Ficou chocada e, amigavelmente, só faltou chamar-me fútil. Disse-me que eu, afinal, me parecia com a sweetjane...

A verdade é esta, não afasto a hipótese de ter mais filhos, se isso constituir um projecto de vida para mim e para o meu companheiro. Também é muito provável que, mesmo não tendo mais filhos, nunca faça qualquer plástica. Ter mais um filho para “dar um irmão à minha filha” é que, realmente, jamais constituirá motivação para mim.