segunda-feira, 27 de novembro de 2006

A Chave


I


nquieta-me ver este blog um pouco nostálgico a respeito das questões da procura da felicidade, e encontrá-lo por vezes angustiado com amargos de boca a respeito das bifurcações não viajadas dos caminhos da vida, como escreve Sweetjane.

"Beleza Americana" (Sam Mendes, 1999) tem uma resposta a dar a Sweetjane. Isto porque a sua história demonstra como um homem de quarenta anos consegue desmontar, ao contrário de todos os que o rodeiam, o puzzle da infelicidade. Porque enquanto existir puzzle, não haverá felicidade. A própria ideia de peças separadas, a própria ideia de enigma que tem de se decifrar é a antítese da tranquilidade atenta que é no fundo o espelho do estado de felicidade. Veja-se a personagem Carolyn Burnham (Annette Bening), como o exemplo perfeito da pessoa que toma a felicidade como uma receita, como um puzzle, como algo que se pode atingir desde que se sigam as instruções... E o que acontece? Quantas mais peças Carolyn tenta diligentemente encaixar no puzzle, mais e mais infeliz se vai sentindo. Sem nunca perceber porquê.

O mundo tem-nos agarrados pelo pescoço por um braço musculado de mal-entendidos; ele apresenta-nos, vende-nos, um modelo de bem-estar, de sucesso material e de aceitação social que, simplesmente, não conduz à felicidade. E são aqueles que, como Carolyn, mais investem, e mais laboriosamente trabalham essa teia duvidosa, os que mais cedo podem constatar a sua ineficácia. O marido de Carolyn, Lester Burnham (Kevin Spacey), é o homem de quarenta anos que descobre o que mais ninguém consegue descobrir: a chave para a sua felicidade. E fá-lo como? Abrindo mão do emprego, abrindo mão da mulher, e abrindo mão das fúteis tentativas de manter um ambiente (só) aparentemente normal dentro de casa. Mas sobretudo, Lester deixa-se intoxicar pela beleza, como primeiro passo para o alcançar da felicidade. O jovem filho do seu vizinho, um rapaz chamado Ricky Fitts (Wes Bentley) que é colega da filha de Lester, confessa, a meio da história, para vergonha daqueles de nós que são infelizes por uma questão de medo: "por vezes sinto que há tanta beleza no mundo, que temo que o meu coração possa simplesmente ceder". Inquieta-me ver este blog um pouco nostálgico a respeito das questões da procura da felicidade (...) como escreve Sweetjane

Afinal quem está mais bem informado? Sweetjane, ou Ricky Fitts? Quem tem razão: as crianças em carrinhos de bébé que ao passar por nós, pessoas estranhas, esboçam um sorriso profundo de uma certeza convicta de que a felicidade é possível?, ou pessoas como eu, que embora lhes retribuindo quase sempre o sorriso, sente por vezes uma espécie de pena, por já antecipar o processo a que o mundo as irá em breve submeter?

Em "Beleza Americana", Lester Burnham, numa espécie de estado de graça, tem visões de Angela Hayes (Mena Suvari), a jovem colega de escola da sua filha, no tecto do seu quarto. Angela surge a Lester sobre um lençol de rosas vermelhas, o seu corpo despido polvilhado de pétalas, na posição da cruz. Metáfora poderosa esta, a de que a redenção do homem se pode atingir pela felicidade, e não necessariamente pelo sofrimento. Isto porque a obsessão inicialmente quase infantil de Lester por Angela vem precisamente a ser a primeira pedra do (afinal curto) caminho da sua felicidade.

Por vicissitudes da história, Lester morre no final do filme. O seu corpo é encontrado na cozinha, baleado na cabeça, um espirro de sangue perturbando o branco homogéneo dos azulejos da parede. Quem o encontra é o rapaz Ricky Fitts, e a filha de Lester, Jane. Ricky é quem se aproxima do corpo, e se agacha junto à cara de Lester. Contagiado pela felicidade que o rosto de Lester irradia, Ricky não consegue evitar sentir-se uma vez mais contagiado pela beleza que existe no mundo, mesmo que desta vez estampada na cara de um amigo que acaba de morrer. Quase esboça ele próprio um sorriso, mas apressa-se a contê-lo, porque Jane não o iria compreender. Afinal de contas, é o pai dela que está ali, morto.

Articulando muito poucas palavras, Ricky Fitts explica-nos ao longo do filme que a felicidade é perfeitamente possível, embora não necessariamente sinónimo de uma colecção de momentos agradáveis ou de situações confortáveis. A curiosidade, a abertura de coração e a perda do medo são as grandes vias abertas para se ser feliz.

O que dizer então a Sweetjane , e aos de nós com inquietações semelhantes? Talvez apenas que a felicidade pode exigir algum esforço; mas que este será tantas vezes menor quanto maior for a nossa curiosidade por aquela.

5 comentários:

xampálymou disse...

recomendo um laxante - ajuda a fazer sair mais depressa a trampa

sweetjane disse...

Juanito, tenho que dar a mão à plamatória. Tu és genial. É a minha opinião sincera. Como vais buscar algumas yesterday's news e as transformas num poema.

Bronco disse...

Ouve, então a moral da história é "a felicidade conduz ao suicício"?

Touro Zentado disse...

Achei absolutamente delicioso este post...
Muito bem...

Juanito disse...

Obrigado, ó Touro Z.